Carlos Ruiz Zafón: Os Nossos Erros Preferidos
David havia dormido como uma
criança durante toda a noite e quando o sol lhe tocou na cara abriu os olhos,
levantou-se e aproximou-se de mim. Abraçou-me com força e quando lhe perguntei
por que voltara respondeu que tinha compreendido que me amava. «Não tens o direito de me amar» disse-lhe. Ao cabo de anos de inactividade, saltou-me a Vesubia que
sempre transportara dentro e comecei a gritar com ele e a deitar cá para fora
toda a raiva, toda a tristeza e toda a ânsia com que me deixara. Disse-lhe que
conhecê-lo fora a pior coisa que me acontecera em toda a minha vida, que o
odiava, que não queria voltar a vê-lo nunca mais e que queria que ficasse
naquela casa e apodrecesse ali para sempre. Ele assentiu e baixou a cabeça.
Suponho que foi então que o beijei, porque era sempre eu que tinha de beijá-lo
primeiro, e pulverizei num segundo o resto da minha vida. O padre da minha
infância enganara-se. Não viera ao mundo para contrariar os outros e sim para
cometer erros. E naquela manhã, nos braços do David, cometi o maior de quantos
podia ter cometido.
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Carlos Ruiz Zafón, O Labirinto dos Espíritos
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